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ME DIGA (ou a carta de uma filha abandonada)

Posted by at maio 02, 2017 Read our previous post
Me diga, como é viver com um pai em casa?
Como é acordar com sua voz bebendo café, ouvir seu bom-dia atrasado ao serviço?
Como é ter um pai entrando no quarto secretamente, para ver se finalmente dormi?
Um pai que confere a extensão das cobertas e se as janelas estão fechadas?
Um pai que coloca remédio de mosquito e esfrega a manga morna do pijama em minha testa?
Como é ter um pai que me acompanha na consulta ao médico? Um pai que assina o boletim?
Como é ter um pai perseguindo baratas pela tranqüilidade doméstica?
Como é brincar com um pai: aprender a dobradura de papel de chapéu e barcos?
Como é ter um pai para perguntar que horas ele voltou do trabalho? Como é empurrar um pai pelos barulhos estranhos no pátio?
Como é ter um pai angustiado com a demora materna, e que me dá banho, me oferece janta e esconde sua preocupação? 
Como é ter um pai para segurar as lâmpadas enquanto ele sobe na escada?
Como é ter um pai para se escorar enquanto ensaio a primeira sequência de passos?
Como é andar de bicicleta com um pai?
Observar atrás se ele me segue?
Como é escutar o ronco terrível do pai e se sentir protegido?
Como é ter um pai para reclamar docilmente da mãe, dizer que ela não me entende?
Como é ter um pai que não me entende?
Como é ter um pai para frequentar a casa dos avós no final de semana?
Como é ter um pai para xingar e logo após reaver a gentileza do abraço?
Um pai que estará no seu escritório, num lugar certo, a facilitar minha desculpa?
Como é ter um pai para responder com confiança aos seus conhecidos como está meu pai?
Um pai para me levar aos jogos de futebol e ocupar o trajeto de volta comentando o resultado?
Como é ter um pai para receber presentes de aniversário, e me ajudar a retirar o papel bonito sem estragar?
Como é ter um pai para sanar as dúvidas das aulas, as operações difíceis, as curiosidades sobre planetas, estrelas e bichos?
Como é ter um pai mais rápido do que o dicionário e que conta o que significa tal palavra? Como é ter um pai com passado?
Como é ter um pai chateado, endividado, alinhando contas do que não podemos mais gastar?
Como é ter um pai com emprego novo, que não pára de falar das novidades no almoço?
Como é ter um pai para pedir o carro emprestado? Um pai para inventar uma mentira e dormir fora de casa?
Como é ter um pai aguardando na saída da escola?
Como é ter um pai preocupado, confessando que perdeu o sono quando na verdade o esperava na madrugada?
Como é ter um pai para me convencer que as dores passam, que amanhã estarei bom, que eu tive coragem?
Como é ter um pai a me orientar - de um modo patético - sobre transar com segurança?
Como é ter um pai beijando a mãe, sussurrando qualquer coisa que a faça rir, e eu me escondendo para que não me vejam?
Como é ter um pai para sair ao cinema, e escorrer pipocas pelas suas mãos?
Como é ter um pai para sentir saudade devagarinho, de um dia para outro ou por algumas horas?
Como é ter um pai preocupado em fotografar a família nas férias? Como é ter um pai festejando uma promoção com jantar no restaurante predileto e só entender sua alegria?
Como é ter um pai histérico, procurando seus óculos, seus livros e cartões extraviados?
Como é ter um pai alegando que estava nervoso depois de uma grosseria e compreender que é o máximo que ele se aproximará de um perdão?
Como é suportar um pai cantando desafinado suas músicas antigas? Como é ter um pai a me socorrer e convencer a mãe a gostar de minha namorada?
Como é sentar no sofá com um pai e assistir um filme reprisado e comentar: “esse eu já vi”: e continuar assistindo a amizade de sentar ao lado dele?
Como é ter um pai para ser parecido com ele? Como é ter um pai vibrando com minha aprovação no vestibular, pregando faixas na frente da residência?
Como é ter um pai para procurá-lo nas centenas de poltronas da formatura?
Como é ter um pai que explica que “as coisas eram diferentes no seu tempo”?
Como é ter um pai que não descobriu que envelheceu porque empresto meus olhos da infância?
Como é ser espetado no rosto pela barba do pai?
Faz coceira, arranha?
Sempre quis saber.

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