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UMA LIÇÃO PARA TODA A VIDA.

Posted by at dezembro 05, 2016 Read our previous post

Era considerado o terror da escola de 1º e 2º graus Corinto de Efiréia: uma escola muito conceituada que fica localizada no bairro Grageru, zona sul da capital. Pré-adolescente com seus doze anos, só que bem maior que os outros meninos. Forte, pele moreno-clara, olhos pretos, impulsivo, arrogante, brigão e aproveitador, assim era Conrado: filho único de um famoso desembargador da cidade, que era por coincidência, amigo de infância do dono da escola. Isso dava ao menino alguns privilégios extras dentro da instituição escolar privada em que estudava. O que o deixava cada vez mais prepotente, se achando o Manda-Chuva da mesma.

- Sai da frente, que lá vem o Conrado! – essa era a frase mais repetida nos corredores da escola.

Certa vez, ele chegou a humilhar uma professora de matemática dentro da sala e quase partiu pra agressão física por ele ter ido para a recuperação final na disciplina dela. 

- Sua burra estúpida! Onde já se viu me dar uma nota dessas? Você acha que estou aqui por causa de você? Você está aqui por minha causa! Todos os professores me aprovaram menos você! 

- Escute aqui, seu menino malcriado! – disse a professora – Tenha mais respeito comigo, pois eu não sou nenhuma colega de sala pra você falar dessa maneira comigo!

Conrado apontou o dedo para ela, e com uma voz autoritária, disse:

- Quem você pensa que é? Escute uma coisa sua lerda: você só trabalha aqui esse ano. Ano que vem eu não quero mais você aqui!

- Ah... Mas vai pras provas finais mesmo hein? – disse a professora com um ar de ironia – Se continuar se comportando desse jeito, vou colocar você na sala da coordenadora pedagógica!

Depois que a professora disse isso, Conrado fez o inferno dentro da sala-de-aula e ameaçou a professora dizendo que ia fazer de tudo para ela ser demitida. Dito e certo! Ele convenceu o pai dizendo que a professora não gostava dele. Então ele e o pai foram tirar satisfações com o dono da escola. No outro ano, ela não estava mais lecionando na Corinto.

Conrado era o que se podia considerar um quase segundo na hierarquia da escola. Quando não estava ameaçando algum menino menor que ele, estava tomando o lanche de alguma menina. O pior é que se algum aluno ou funcionário fosse reclamar, os coordenadores da escola fingiam que escutavam as reclamações e não faziam nada a respeito. O que tornava a prepotência dele ainda maior.

A rotina da equipe de coordenadores era essa:

- Tia, o Conrado tomou o meu lanche no recreio! – disse uma menina aos prantos na sala da coordenadora.

- Vou conversar com ele. – dizia a coordenadora, apenas por dizer.

- Tia... Snif... Snif... O Conrado me bateu! – falou um menino do quinto ano primário.

- Já conversamos com ele, e ele não vai mais fazer isso. – disse mais uma vez a coordenadora pedagógica da escola, apenas para consolar o menino.

E os dias então se passam sem que ninguém tome uma atitude perante isso. 

A vida de Conrado começou a mudar no verão do início do ano de 1998, quando ele estava no primeiro ano do ensino médio, com a entrada de um menino franzino da mesma idade que ele, dezesseis anos, mas muito bem comunicativo e descolado, com um nome que parece ter saído de um livro de faroeste chamado Jack Leonel Sullivan Steps. Ele era menor do que os meninos da idade dele; tinha olhos castanhos cor-de-mel, cabelos castanhos lisos, pele branca, um pouco robusto por não viver trancado igual aos outros meninos da escola, brincando na rua e sempre se movimentando; ar decidido, confiante e possuía uma facilidade enorme para se comunicar com as pessoas.Em seu primeiro dia de aula, ele já começou com o pé direito: 

- E aí galera! Bom dia! Chamo-me Jack e já estou gostando de estar aqui com vocês.

- Olá Jack – disse a professora Matilde, de português. Uma mulher loira, com seus trinta e cinco anos de idade – espero que você seja bem-vindo e traga sempre esse seu sorriso todos os dias pra cá pra escola.

- Vou tentar fazer o esforço professora – disse o menino – mas estou aqui mesmo pra estudar. Não ralei demais pra fazer esse provão e vir pra cá pra brincar.

- Que bom Jack! Espero que se dê bem com todos da turma.

Nisso, um dos meninos chamado Jonas, fala:

- Senta aqui Jack. Essa carteira tá vaga.

Uma menina, magrinha e alta, chamada Regina pergunta baixinho:

- Você é o bolsista que passou no provão em primeiro lugar não é? Eu vi o seu nome no “listão” de aprovados. Eu fiquei em terceiro e ganhei a bolsa dos 30% de desconto.

- Poxa, que bom hein! Imagine se você não tivesse passado? Poderia estar agora pagando os olhos da cara em mensalidade e material.

Enquanto ele falava com Regina, outro aluno, chamado Andreas pergunta:

- Seu pai trabalha de que Jack?

- Vamos prestar atenção na aula. Depois a gente conversa mais. – disse Jack desconversando sobre esse assunto.

Jack era filho de um motorista de madames, que trabalhava para um senhor chamado Mônaco, e evitava falar disso, com medo de ser motivo de chacota dentro da escola. Pois a Corinto de Efiréia era uma escola bem cara, onde a grande maioria dos alunos eram filhos de engenheiros, médicos, advogados, empresários e políticos da cidade de Aracaju. Jack sabia que estava lá porque tinha feito um provão, e passou em primeiro lugar, pois as escolas particulares da cidade só se promoviam em cima dos alunos bolsistas, pois eles eram sempre os que tiravam as notas mais altas. Por isso ele recebeu uma bolsa integral, com direito a material didático completo. Ele não se incomodava com as profissões dos pais dos outros alunos, mas tinha vergonha de falar da profissão do pai perto dos colegas.

No começo, Jack ficou voando nas conversas dos colegas da sala, pois eram sempre sobre jogos de computador, shoppings, roupas, moda etc. Coisas que também existiam no mundo de Jack, mas ele não dava tanta importância, por ter tido uma criação mais livre de condomínios de luxo. Ele conquistou a admiração dos colegas falando de coisas menos palpáveis como piadas:

- Essa eu aprendi assistindo o Jô Soares. O cara, dentro do açude: “Socorro! Glub... Glub... Joguem uma corda, pois eu tô me afogando! Um gaiato passa por perto e fala: e ainda por cima quer se enforcar?”

Todos caiam na gargalhada:

- Ah! Ah! Ah! Ah! Essa foi hilária Jack! – dizia o Andreas ou o Jonas.

Opiniões sobre alguns desenhos animados: 

- Gosto muito dos desenhos dos X-men. Cara, eu tenho um monte de revistas em quadrinhos em casa deles. Gosto muito do Wolverine. Mas ele perdeu o “adamantium” nas revistas em quadrinhos americanas. Não tem mais a fama que tinha antes. Agora quem tá fazendo sucesso é o inimigo dele, o Dentes-de-Sabre. O cara é mais animal do que o próprio Wolverine.

- Eu gosto mais de animes. – dizia Regina – Coleciono vários deles em meucomputador.

- Pô! Legal Gina! - disse Jack - Eu também assisti os desenhos do Dragon Ball Z, e acompanhei pela internet, a saga de Goku até ele ficar adulto.

De como são divertidas as viagens para o sítio do avô e as aventuras que ele vivia lá:

- Rapaz, o sítio do meu avô é grande e tem várias árvores no pomar: mangueiras, uma laranjeira, um pé de jabuticaba, vários pés de melancia, e eles criam passarinhos ao ar livre. 

- Caraca! É mesmo Jack?  - diziam os meninos em coro.

- Mas como é que ele faz? – Pergunta Jonas.

- Minha avó ou ele colocam as rações e restos de frutas e os passarinhos vêm aos montes. Aparecem periquitos, rolinhas, sabiás e bem-te-vis. 

- Nossa Jack! – dizia Andreas – se eu quiser ver passarinho, tenho que ir ao zoológico. E na fazenda do meu avô só tem gado e cavalos.

- Isso sem contar que meu avô cria uma coruja, macho. Ele a chama de “Craz”, por causa do som que ela faz. Lá no sítio não tem ratos por causa do “Craz”, que caça todos. Meu avô o achou ainda filhotinho e cuidou dele. Todas as noites, ele aparece pra nos visitar. Meu avô separa uns pedaços de carne e dá pra ele. Mas ele curte mesmo é caçar ratos. Eu mesmo já vi o Craz dando um rasante e pegando um rato, lá no sítio.

E as histórias das viagens que o avô fazia mundo afora, apenas com uma mochila nas costas ou uma pequena mala, com poucas roupas:

- Meu avô quando era mais novo, e até a alguns anos atrás, viajava muito e era mochileiro. Ele sempre ia com minha avó e com os amigos para vários lugares. Uma vez ele me contou que foi pra África, e passou vários meses em um templo espiritual. E isso tudo com uma mochila nas costas. Foi incrível! A decoração do sítio é cheia de coisas que ele trás dessas viagens. Ele trouxe um tambor africano dessa viagem, que fica na sala. O tambor é esculpido num tronco de árvore. Diferente desses instrumentos que se compram nas lojas.

Os meninos ouviam atentos e se perguntavam: "como alguém consegue passar tantos dias fora de casa com tão poucas roupas? Ele deve fazer alguma mágica". 

Na hora da saída, a grande maioria dos alunos invejava Jack pelo fato do pai ou a mãe dele vir buscá-lo na escola, pois a grande maioria ou quase todos, quem buscava era alguma babá ou algum segurança. Dava para ver o olhar carente daquelas pobres crianças ricas, cujos pais não podiam oferecer nada a não ser dinheiro.

Não posso deixar de frisar que a popularidade de Jack irritava alguns, principalmente Conrado, pois ele não era mais o centro das atenções. E apesar de ser menor do que Conrado, Jack não tinha medo dele, o que deixava Conrado ainda mais furioso, pois pela primeira vez, um aluno da Escola Corinto não olhava para ele com o ar apreensivo, desde que tinha sido matriculado nela há cinco anos. Então Conrado fez o que qualquer valentão sabe fazer de melhor: começou a pegar no pé de Jack.

Primeiro começou com apelidos: 

- Olha o pedreiro! Vai trabalhar em que construção depois daqui? Ou você trabalha de feirante nos fins-de-semana? Há! Há! Há! Há! Feirante!

Depois começou a se esbarrar nele, quase o derrubando:

- Sai da frente! Você está invadindo meu espaço, seu pedreiro!

Jack passou mais de um mês cabisbaixo por causa desses apelidos e do modo que Conrado o tratava, pois tinha medo que se ele (ou algum outro aluno arrogante igual a ele) descobrisse que o pai dele era motorista, podiam falar coisas piores. Mas nesse tempo, em que esteve recolhido dentro de si mesmo, Jack ficou pensando em uma forma de fazer com que Conrado parasse de pegar no pé dele.

Foi aí que um dia, na hora do recreio, quando Conrado passou esbarrando nele, chamando-o de "pedreiro", ele abriu a boca e disse bem alto:

- Sai fora... Pare de me amolar... Estrupício! Melhor ser um pedreiro, a ser uma mula igual você!

Nessa hora, aconteceu o maior efeito dominó da história da escola Corinto de Efiréia: todos riam e apontavam para Conrado, repetindo o apelido que ele tinha acabado de receber. 

- Estrupício! Há! Há! Há! Há! Estrupício!

Pela primeira vez em cinco anos, os alunos da escola zombavam dele, deixando-o sem ação. Isso fez com que ele tomasse a atitude que todo valentão toma nessas horas: partiu pra cima de Jack, empurrando-o e caindo em cima dele. Nesse instante, o colégio parou de rir e apenas ficaram olhando imóveis, Conrado esmurrando Jack, que por tentar se defender estava em desvantagem. 

- Quem é o estrupício agora hein, seu pedreiro?

- É você mesmo, seu estrupício!

Mas o que ele também não esperava, era algo que Jack nunca contou na escola: o avô dele tinha ensinado Jack a se defender em brigas. Foi aí que teve a reviravolta. Jack prendeu os pés na barriga de Conrado, e o empurrou para trás, fazendo Conrado cair longe. Com a farda da escola suja, a boca sangrando e alguns arranhões, Jack se levanta olhando pra Conrado e fala: 

- Pode vir neném da mamãe! Não vou correr como os outros não, só porque você é maior do que eles!

- Você acha que eu tenho medo de um pedreiro igual a você? Você vai estar sempre abaixo de mim!

- Eu devia ter derrubado uma menina. Ela com certeza falaria menos.

Quando Jack terminou de dizer isso, todos riram de Conrado mais uma vez. Isso deixou o valentão ainda mais enfurecido. Ele então se levantou e partiu pra cima com mais raiva. Jack desviou do primeiro soco, e deu um soco na barriga de Conrado, que sentiu a força dele e percebeu que ele não era fraco como os outros. Era como se Jack fosse bem maior do que ele, apesar de Conrado o estar olhando de cima para baixo. E foi então que Conrado partiu pra cima com tudo: esmurrou Jack várias vezes, tentando acertar seu rosto, mas sem sucesso, pois Jack desviava e revidava os socos de Conrado.

Foi quando num descuido, Jack se deixou acertar por um soco de Conrado no nariz. A força que Conrado usou nesse soco, fez Jack cair no chão estatelado. Toda a escola ficou em silêncio, achando que Jack tinha apagado. Até o próprio Conrado achou isso, e ficou peitando os outros dizendo: 

- Quem é que vai ser o próximo a me encarar, hein? Quem vai ser o próximo a se achar mais forte do que eu? Falem seus moles! Seus otários! Quem manda aqui nessa merda de escola sou eu!

De repente, para espanto de todos, Jack se levantou. Por alguns segundos, sua sombra parecia ter ficado maior, como se o garoto tivesse aumentado de tamanho por dentro. Ele olhou para a camisa e viu umas gotas de sangue. Passou a mão no rosto e sentiu o nariz inchado, dolorido e sangrando. Ele então cheira o sangue e sente o cheiro da pele de Conrado nele. Seu olhar se volta para Conrado, mas também havia mudado. Era um olhar calculista e instintivo, desses que animais predadores possuem. Jack deu uma gargalhada amedrontadora, como se tivesse sido libertado de alguma prisão. Ele olha para Conrado e fala:

- Eu me acho mais forte do que você, riquinho – disse Jack, olhando fixamente para Conrado, com um estranho sorriso nos lábios – e não vou precisar usar, nem a força de um braço meu, pra lhe dar uma surra.

- Pois eu vou colocar você em seu lugar, que é embaixo dos meus pés, seu pedreiro!

Dizem que o ser humano com raiva pode aumentar a sua força em até quatro vezes, por causa da adrenalina que o cérebro libera no sangue. Só que nesse momento, Jack não estava com raiva: ele estava possesso. Mas mesmo com essa raiva inteira dentro de si, ele cerrou os olhos, fechou os punhos como se quisesse tirar o ar das palmas de suas mãos, e com uma frieza interior, sem expressar raiva ou ódio, Jack partiu pra cima de Conrado como se tivesse extinguido a palavra medo, do seu vocabulário.

Só que ele olhava para Conrado como se não fosse um ser humano normal. O desmaio repentino e a raiva por ver seu nariz sangrando fizeram com que o olhar dele se tornasse um olhar animalesco, como se ele estivesse cego e só enxergasse o valentão à sua frente. Nesse momento, muitos alunos perceberam que não era Jack quem estava ali: tinha algo de diferente nele.

Então ele esmurrou, chutou e bateu até Conrado cair no chão sem forças e sem resistência. O garoto não queria deformar lhe o rosto e nem mesmo fazer algo pior com ele. Jack ria ironicamente, gargalhava e batia nele com prazer, como se cada golpe dado liberasse endorfinas em seu sangue e desse mais vigor ao garoto. Era como se a briga em que estava o alimentasse. Conrado apanhou tanto, mas tanto, que mesmo fraco, sentindo dores no corpo todo, com os olhos cheios de lágrimas, sem forças e com seu orgulho totalmente destruído, chegou aos pés de Jack se arrastando e disse:

- Leonel... Não me bata mais... Por favor!

A fúria de Jack era tanta, que o garoto rosnava como um cão. Mas mesmo assim ele olhava cega e friamente para o valentão prostrado a seus pés. Ele olhava o valentão chorando como um bebê, pedindo pra ele parar de bater. Seu lado emocional dizia dentro dele pra ele parar com aquele show de violência gratuita, pois Conrado já tinha sido humilhado o suficiente. Mas parecia que dentro de Jack havia aparecido alguém totalmente diferente do que era ele. Jack levanta Conrado pela gola da camisa, como se estivesse pegando um caderno no chão, e de sua boca veio uma única frase perante essa situação de piedade: 

- Você começou isso tudo riquinho, e agora quer que eu pare? – Perguntou Jack, sorrindo ironicamente, por estar vendo um valentão tão fraco na frente dele - Me obrigue! - E deu um último soco no meio da testa de Conrado, fazendo o cérebro do valentão tocar o crânio, e o mesmo apagar de vez.

Os colegas de Jack ficaram preocupados com a situação. Mas por dentro, todos os alunos ficaram um tanto quanto alegres por verem alguém enfrentar Conrado até as últimas consequências. E só depois de verem a briga até o final, é que foram chamar a coordenação, que acudiu Conrado e Jack, levando os dois para a enfermaria.

Uma hora depois, os pais deles foram chamados até a escola e discutiram muito, pois a coordenação queria dar uma transferência da escola para Jack, mas não queria punir Conrado, alegando que Jack tinha começado tudo:

- Seu filho senhor Sullivan, além de não respeitar a nossa instituição escolar por ser bolsista, é um arruaceiro e um brigão. Ele deixou o filho do senhor Albuquerque em um estado deplorável! – dizia a coordenadora.

- Não tenho culpa se não ensinaram a esse menino a ter boas maneiras. Conheço meu filho, ele sabe muito bem que só se entra numa briga quando não existe mais nenhum outro recurso. E ele só briga pra se defender. O Jack não é de sair do espaço dele pra invadir o espaço dos outros! – defendia o pai de Jack: um homem branco, de estatura média, forte, cabelos pretos, bigode e vestido com uma roupa social de motorista.

- Fique o senhor sabendo que o Conrado não é de briga. Ele é bem tranquilo em casa, faz os deveres nas horas certas e nunca ouvi reclamação alguma desde que ele foi matriculado aqui dentro! – Dizia o desembargador Albuquerque, pai de Conrado: um homem moreno, baixinho, olhos castanhos, cabelos escuros e crespos, e usava um terno bem caro.

- Pois devia observar melhor o comportamento do seu filho. – dizia o pai de Jack. – Jack me fala muitas coisas que ele faz aqui nessa escola. E as pessoas por medo do seu status social escondem e mascaram todas as traquinagens dele.

- Você está dizendo que meu filho é um valentão de escola? – Esbravejou o pai de Conrado. – Ele em casa, ou quando sai com a gente pra algum lugar, nunca dá trabalho.

- Não importa se Conrado é um valentão ou não, o que importa é que Jack começou a briga, e a transferência dele já está pronta para o senhor assinar, senhor Sullivan – falava calmamente a coordenadora da escola, mais uma vez sendo conivente com as atitudes de Conrado.

Alguns alunos que estavam de castigo na sala da coordenação, ao ouvirem a discussão dos pais de Jack e Conrado, começaram a fazer um imenso telefone sem fio. E todos começaram então a repassar a notícia de que Jack iria ser expulso por uma briga que Conrado havia começado.

- Isso não pode ficar assim! Jack não pode ser expulso por causa da ousadia de Conrado. A gente tem que fazer alguma coisa! – disse um dos meninos do quinto ano, ao receber a notícia sobre a expulsão de Jack – Vamos lá, na sala dele avisar aos outros!

Quando a notícia chegou aos ouvidos de Jonas e Andreas, os dois mobilizaram toda a escola num protesto coletivo, a favor de Jack. Eles juntaram quase todos os alunos do ensino fundamental e começaram a ir até a sala da coordenação. Era inacreditável de se ver: mais de cinquenta alunos querendo entrar na sala dos coordenadores.

- Mas o que é isso? Todo mundo já pra sala! – Dizia uma das coordenadoras.

- Ninguém vai sair daqui da frente da porta! – Disse Andreas – A gente ficou sabendo que Jack vai ser expulso e que mais uma vez, Conrado vai sair do meio desse tumulto que ele mesmo começou, bem tranquilo. Por isso resolvemos vir aqui avisar que se Jack for expulso, vamos pedir aos nossos pais pra transferirem a gente pra outras escolas.

Quando souberam disso, os outros alunos do ensino médio também se agruparam na porta da sala da coordenação, e ameaçaram o diretor e os coordenadores da escola dizendo que se Jack fosse expulso, todo mundo ia pedir aos pais para ser transferido também. A mobilização deixou a coordenação sem ação, e os pais de Jack e Conrado ficaram tão admirados com a atitude dos alunos, que nem discutiram mais sobre nada: pediram desculpas um ao outro, apertaram as mãos e resolveram levar os filhos pra casa.

Enquanto o tumulto acontecia na sala dos coordenadores, na enfermaria, Jack estava sentado numa cadeira, sendo cuidado pela enfermeira da escola, e Conrado estava deitado em uma maca, com uma bolsa de gelo no rosto. Ambos estavam com um ar de esgotados.

Assim que a enfermeira saiu da sala pra pegar mais curativos, um enorme silêncio tomou conta do ambiente. Só se ouvia o som do ventilador de teto. Nenhum dos dois meninos ousava abrir a boca pra falar algo. Foi quando um deles quebrou o gelo:

- Cara... Você bate bem, e até bate forte pra um magrelo. Onde você aprendeu a brigar desse jeito? – Perguntou Conrado, olhando para o teto.

- Faço muitas coisas quando passo as férias no sítio do avô do... Do meu avô. E lutar é uma delas. Só que eu não luto por lutar: luto pra me defender. Mas por você tratar as pessoas como você trata, eu entrei nessa briga em nome de todo mundo da escola – Respondeu Jack, como se olhasse para o horizonte.

- Sabe Jack, eu não gosto de falar pras pessoas isso o que eu vou te dizer agora. Mas não gosto dessa minha vida certinha demais. Meus pais me cercam de mimos e me cobram coisas que eu nem sei se vou conseguir alcançar!

- Já tentou falar com eles? – Perguntou Jack.

- E falar adianta alguma coisa? Eu só tenho quinze anos, e meu pai já fala que eu vou ser advogado. Só que eu não sei se é isso o que eu quero. – Respondeu Conrado.

- Andei observando você aqui na escola: seu comportamento, seu dia-a-dia... Deve ser difícil viver a sua vida meu amigo.

- Você me chamou de que Jack?

- De amigo. – Disse Jack, estendendo a mão para Conrado, que a apertou bem firme.

- Puxa... Você é o primeiro que me chamou de amigo de verdade aqui nessa escola. Muitos meninos que andam comigo nunca me chamaram disso. – Falou Conrado ainda olhando pro teto, deitado na maca e segurando a mão de Jack.

- Se você mudar seu comportamento, você vai ouvir essa palavra de muita gente. O avô do... Digo... Meu avô me ensinou que a gente conhece as pessoas de verdade, olhando dentro delas. E você não é esse valentão que você tenta passar pras pessoas – Falou o Davi que derrubou o Golias.

Nisso Conrado se senta na maca, e os meninos se olham durante alguns segundos em silêncio. Os rostos foram mudando automaticamente, e uma gargalhada bem alta foi dada ao mesmo tempo pelos dois:

-Você parece que foi atropelado por um caminhão! – Disse Conrado quase chorando de rir.

- E você? Parece que passaram um trem por cima de você! – Falou Jack, rindo alto – Trégua?

- Trégua! Mas na próxima se prepare magrelo! – disse Conrado apertando a mão de Jack, com a firmeza que os bons amigos se cumprimentam.

- Você vai envelhecer e nunca vai conseguir me superar riquinho – disse Jack, ainda falando como se fosse outra pessoa – mas gostei de você. Apesar de viver no luxo, você tem fibra e tem caráter.

Quando foram buscar os dois na enfermaria da escola, todos ficaram espantados! Jack e Conrado estavam rindo um da cara do outro e achando graça no que um tinha feito no outro e como eles pareciam que tinham sido atropelados. Ninguém conseguia entender a situação, mas enquanto todos discutiam, Jack fez as pazes com Conrado e disse que só fez aquilo pra ele aprender que não é o dono do mundo e que nada gira ao seu redor.

Desse dia em diante, nunca mais brigaram, só andavam juntos, e viveram muitas outras aventuras. Jack mostrou a Conrado o mundo em que vivia e Conrado quase deixou os pais loucos, quando bateu o pé no chão e disse que não ia querer mais fazer faculdade de direito, e ia ser turismólogo, para trabalhar viajando pelo mundo.

A diferença que divide meninos de homens está nas lições que cada um aprende. Conrado precisou aprender de um modo difícil, como ser o amigo que ele é até hoje. Mas Jack ensinou muito bem o dever de casa pra ele. O estranho é que nenhum dos presentes notou a sombra de Jack ter aumentado de tamanho por alguns segundos, durante o pequeno desmaio que ele sofreu no pátio. Aquilo sim foi de arrepiar!

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