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UMA ENTREGA, UMA REFLEXÃO.

Posted by at março 17, 2015 Read our previous post

Lobato desperta tarde, numa bela manhã ensolarada de domingo do ano de 2997, em Nova Serigy. Tinha ido a duas festas no mesmo sábado: o aniversário de um colega que trabalhava no mesmo cartório que ele, em um luxuoso salão de festas em Urano, e à festa de casamento de uma das filhas do ex-patrão da sua mãe, em uma das mais badaladas luas de Saturno. Ela não se sentiu bem no dia marcado no convite e seu ex-patrão (um mutante cuja aparência lembrava a de um porco, misturado com cachorro) pediu que ao menos uma pessoa da família dela fosse. Ele, ao ouvir a conversa e conhecendo muito bem as luas de Saturno, foi o primeiro a se escalar para salvar a pátria e o primeiro a destruir temporariamente o próprio organismo tomando todas e mais algumas, mesmo sabendo que não se pode exagerar na comida e na bebida, quando se viaja para grandes distâncias, usando os tele transportes manuais. “Cadê meu fator mutante de cura nessas horas?” pensava ele, rindo de si mesmo pelas condições físicas e psicológicas que se encontrava ao acordar, e por ser fã dos X-men, que com os avanços da medicina e da reestruturação genética, deixaram de ser revistas em quadrinhos e passaram a ser os novos deuses capitalistas estéticos da atualidade, ganhando o DNA das pessoas. Em 2997, qualquer um com mais de cinco mil runas lumens (o nome da moeda atual) pode alterar seu DNA e assumir a forma e ter as habilidades que quiser.



Eram cerca de dez horas da manhã. Ele bebe um café transgênico forte e bem quente (muitas frutas, verduras e legumes entraram em extinção, depois que dois meteoritos caíram nos principais celeiros do mundo: Brasil e EUA em 2500. Isso fez com que a maior parte dos alimentos só fosse possível chegar á mesa das pessoas através dos avanços genéticos), “para equilibrar os nervos”, é o que sempre fala. Depois do café, resolve dar uma volta no bairro, pra esticar as pernas. Ele é filho do Bairro Albert Einstein, pois antes de sua mãe pensar em crescer e se multiplicar, ela se mudou para o bairro. E só depois que se mudou foi que aos setenta e seis anos (a expectativa de vida melhorou e o ser humano ultrapassa os 180 anos), é que ela começou a constituir família.

Lobato não é muito extravagante, pois se considera um tipo comum de pessoa para o século em que vive: descendente de Neo brasileiros ou ultra-miscigenados por parte do avô, alto, robusto por causa da musculação eletrólita que pratica durante as noites de sono, olhos claros, olhar reflexivo, cabelos castanhos curtos e pele queimada de sol. Se ele possui algo de diferente de um ser humano normal ou geneticamente modificado, é o terceiro olho no meio de sua testa e um fator de cura acelerado, que só depois de tê-lo implantado, percebeu que não poderia mais dar desculpas de que estava doente para faltar ao trabalho. Mas nem de longe essas particularidades são perceptíveis, pois a população da Terra estava dividida entre: humanos normais, alienígenas, híbridos e geneticamente modificados. Por isso que dá a impressão de que são imperceptíveis. Ele sabe que acabara de chegar de uma festa às quatro da manhã. Então seu organismo, mesmo com o fator de cura agindo o mais que pode, ainda está se acostumando com o horário em que acordou. Por isso a sensação de que está fora do corpo permanece. Sensação essa que fora resultado das brincadeiras com bebidas que rolou em uma das duas festas, mais o uso do tele transporte.

Sua boca ainda está com gosto de cigarro venusiano, apesar de não fumar, devido às várias meninas e fêmeas de alienígenas fumantes que beijou na primeira festa, principalmente a Nadara: uma fofinha branquinha, híbrida de pai terráqueo e mãe jupteriana, de quatro grandes olhos castanhos, cabelos um pouco abaixo dos ombros, formas bem delineadas, macia como uma esponja, e que é a sua principal namoradinha nessas festinhas afrociberdélicas (Chico Science era o Elvis Presley de 2997) que ele frequenta. Ela é noiva de um alienígena que mora em Júpiter, e que vem aqui na Terra de vez em quando. Às vezes ela se tele transporta pra Júpiter, para ficar um tempo com ele. Tirando essas idas e vindas, ela fica com Lobato e com outros carinhas, quando o mesmo está ficando com outras meninas ou alienígenas.

Lobato também gosta de filosofar. É o tipo de homem reflexivo sobre as coisas que acontecem no seu dia-a-dia. E foi justamente nesse domingo nublado, quando está passando pela Avenida Simon Vento Bolívar, que ele dá de cara com ela: ruiva de cabelos extremamente lisos, um pouco abaixo dos ombros; aparentando ser uma adolescente de uns vinte e oito anos; olhos negros, cruéis e tentadores, como se possuísse fogo por trás deles; pele vermelha, híbrida de marciano; dentes pontiagudos perfeitos e um corpo bem desenhado: uma falsa magra com três belos seios. A garota desconhecida passou por ele, olhou em seus olhos, passou sua língua bi partida nos lábios e sorriu. Aquele gesto pegou Lobato desprevenido, pois era como se algo dentro dele despertasse os seus hormônios de maneira brusca. E mesmo depois do “oi” casual que ela deu, assim que se afastou mais e deu uma conferida na cauda da moçoila, ele apertou o passo e começou a filosofar, pensando alto, como se estivesse olhando algo no espaço que somente ele enxergava:

- Ah... Garota ingênua de longos cabelos vermelhos e olhar pecaminosamente demoníaco... Olhaste para mim nessa manhã nublada de domingo aqui no bairro, e mesmo sem me conhecer, abriste um belo sorriso ao passares por este cachorro sem dono. Agradeço-vos por iluminar e animar minhas chances de encontrar a felicidade, mesmo que seja por esses poucos segundos em que nos olhamos na rua.

Ele então visitou alguns colegas pela manhã, trocou algumas ideias e voltou para casa, para almoçar. Durante a tarde, a mãe de Lobato pediu que ele fosse entregar uma encomenda num bairro não muito distante do Albert Einstein, mas que também possui nome de cientista famoso: o bairro Augusto Comte. Ela havia trabalhado durante anos como copeira e cozinheira na casa de um antigo sócio de uma fábrica de foguetes do interior, e mesmo depois de se aposentar, ainda fazia comidas das mais variadas e mandava para o seu antigo patrão. Aí Lobato, para fazer uma média com a mãe, pois chegou totalmente inflamável dentro de casa, de tanto uísque venusiano que bebeu, colocou uns óculos de sol, deixou o tele transporte manual em casa e saiu para pegar o coletivo voador, para entregar a encomenda que a mesma o pedira.


Ao passar voando por cima do mercado Mendel, o vento frio que vinha do poluído Rio Gólgota, faz todos os seus poros gelarem. A podridão e a sujeira do mercado, um dia depois de uma rave, o fazem lembrar-se da podridão do mundo que ainda o cerca: as pessoas sendo dominadas pelos mais fortes, apenas por dinheiro, sendo que o dinheiro, mesmo em 2997 compra até mesmo seres humanos, ou partes separadas deles, como decretou a Lei do Livre Capitalismo Em Geral, promulgada pelo G20 em 2335. Como um louco que escuta vozes dentro da própria cabeça, falando sozinho, ele reflete:

- Dinheiro... Esse mal necessário que destrói amizades finge amores e separa famílias. Tudo o que é de ruim surge através dele, quando ele não é bem utilizado. Ainda bem que não sou como esses ajuntadores de fortunas, que passam a vida inteira juntando runas lumens para se “aposentar”, e depois morrem, deixando o dinheiro acumulado pra outros gastarem em questão de segundos – pensava em voz alta.

]O coletivo agora passa pela Rua Saint Silvia, onde à noite todas as sodomias e os luxuriantes desejos da carne são saciados. Prostitutas humanas, alienígenas, travestis híbridas e garotos de programa estão ali durante a noite, sempre dispostos a vender o prazer sem limites a quem estiver disposto a pagar em runas lumens, o preço exigido.

Lobato chega então ao fim de sua viagem. O ônibus barulhento, apesar de ultramoderno (transportes públicos ainda são transportes públicos, mesmo em 2997) vai dando lugar ao silêncio da Avenida Herbert de Souza e dos pássaros virtuais da Praça Tomas Edson. Ele caminha algumas centenas de passos, entrega a encomenda e retorna ao ponto onde desceu, para esperar outro coletivo voador, e voltar para o aconchego do conflitante lar.

Já no ponto onde para o coletivo, ele observa ao longe alguns adolescentes em seus skates voadores, fazendo suas manobras e desafiando a gravidade e o pouco trânsito que existe na Avenida. Ele fica imaginando quando a massa desse país vai evoluir para povo e vai desafiar a minoria rica e corrupta de frente. Chega então o coletivo. Lobato entra nele, e conforme o dejavu vai acontecendo, esse momento de reflexão criado por ele em mais uma sessão de histórias virtuais, através sua caríssima máquina de sonhos, vai se encerrando em suas anotações mentais, com a visão holográfica da garota de longos cabelos vermelhos que não estava na programação de sua máquina e apareceu do nada em sua mente, sorrindo para ele nesse dia real, frio, sombrio e nublado de domingo. E depois de alguns minutos de viagem, ainda sob os efeitos da máquina de sonhos, ele olha para o mundo destruído do lado de fora de seu apartamento acima das nuvens, com um olhar nostálgico. E ainda se perguntando e acreditando se o que a máquina reproduziu era real, ele observa o caos e se pergunta:


- Afinal de contas garota, quem diabos é você?

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