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O DEVORADOR DE LIVROS.

Posted by at março 17, 2015 Read our previous post
Todos os dias eu o encontrava no terminal de ônibus do mercado Albano Franco. Ele era alto e gordo, bastante gordo. Usava boné, óculos escuros, calça cinza um pouco suja, sapatos cinza, camisa surrada verde, laranja ou preta e uma bolsa de pano a tiracolo, dessas que universitários ou hippies usam. Eu pegava sempre o mesmo ônibus que ele, e o observava sem que ele me notasse. Percebi que ele seguia sempre a mesma rotina: abria a bolsa e sacava de dentro dela, adivinhem o quê: uma garrafa de água? Não! Uma arma? Também não! Um saco de merda fresca? Menos ainda! Sabem o que é? Um livro. Mas me respondam vocês: onde já se viu em pleno século XXI, uma pessoa das massas que lê nas ruas, e principalmente dentro de ônibus? Ninguém no Brasil gosta de leitores. Leitores aprendem a virar povo através do prazer e do conhecimento proporcionado pelos livros. E todo mundo sabe que no Brasil dos políticos corruptos, dos superfaturamentos, dos Reality-Shows, do funk e do pagode, políticos e empresários não contratam leitores: contratam ignorantes, e sabe por quê? Porque leitores argumentam, questionam e vão atrás dos seus direitos. Ignorantes abaixam a cabeça e obedecem. Ignorantes vivem e morrem para seus trabalhos: leitores trabalham para viver.

Aquele comportamento de leitor que ele tinha me irritava todos os dias. Ele era igual a todos os outros que se sentavam no fundo do ônibus, mas se destacava no meio da multidão por causa daqueles livros. Não que eu me incomodasse com o fato dele estar lendo. Mas ele poderia fazer coisas mil que todos os que sentam no fundo do ônibus fazem. Ele poderia ligar alto o som do seu celular e colocar um pagode baiano ou um funk carioca, mas não! O miserável abre a porcaria de um livro e adquire conhecimento! Será que ele não percebe que o conhecimento afasta as pessoas do sistema capitalista? Vejo nos classificados dos jornais, que empregos de ignorantes pagam mais do que empregos para leitores. O operário padrão para o sistema de governo atual tem que ser inteligente o suficiente para aceitar todas as regras, e ignorante o suficiente para não questionar nada. E o que mais os leitores fazem é questionar. 

Penso que ele poderia ser um intelectual. Mas intelectuais aqui nessa cidade não pegam ônibus! Os "intelectuais" aqui têm carros do ano, belas roupas, furtam ideias dos outros, pois geralmente eles são chefes dos mais inteligentes e brigam o tempo todo pra manterem sempre o posto de melhores intelectualmente do que os outros. Pensei também que ele poderia ser um franciscano. Mas franciscanos não usam sapatos, mesmo os aspirantes. 

Resolvi então pôr um fim naquilo que me incomodava. Peguei meu celular e coloquei um pagode baiano bem alto. Pensei que ele se incomodaria e pararia a leitura para ouvir o som massa que estava rolando no meu celular, que aliás um monte de gente estava ouvindo e cantando a letra da música dentro do ônibus. Mas nada. Ele continuava com o rosto enfiado dentro daquele livro.

Um dia, uma ruiva de olhos castanhos cor de sangue, gostosa que só a poxa, subiu para o ônibus e foi lá pra perto dele. Todo mundo tarou e secou a mulher com os olhos, menos ele. Ele ficava o tempo todo lendo um livro chamado "O ‘BOCA DO INFERNO’” de Ana Miranda. Até mesmo a ruiva percebeu que ele era o único que não olhava pra ela, pois ela olhava direto pra ele. Ela nem olhava os outros que estava secando ela com os olhos. Ela só se sentia incomodada porque de todos, ele era o único que não estava nem aí pra ela.

Resolvi então um dia segui-lo e ver o que ele fazia depois que atravessava a cidade por quase uma hora dentro do ônibus. Assim que ele saltou no ponto, fui atrás. Estava no bairro Santa Maria, ou Terra Dura, para os íntimos. Segui-o até uma escola pública e percebi que era lá que ele trabalhava. Assim que entrou, cumprimentou a todos os outros funcionários. Sua voz era forte e ele falava bem. Conversava com todos por igual. Às vezes soltava umas gírias quando conversava com os funcionários da mesma função dele. Mas com os da secretaria e os professores, ele conversava de maneira bem formal e até debatia sobre algumas coisas que só os professores entendiam. E olhe só que contraste enorme era aquele homem: ele era o zelador da escola. Limpava a escola e depois ficava tomando conta do portão. Durante o tempo livre dentro da escola, abria mais um livro e começava a ler. Era um absurdo ver aquilo! Um zelador de escola, lendo?! Porque ele não faz jus ao seu emprego e vai assistir televisão? Porque ele insiste em não fazer parte da maioria? Isso não é aceitável nessa sociedade! Se ele é da massa, que seja então da massa! Não há espaço para o povo nesse país. Os políticos mascaram nas campanhas que gostam, mas na verdade não gostam do povo. Eles preferem as massas, porque a massa é emocional e o povo é racional. O povo pensa; a massa se ilude.

Olho para o que ele está lendo, enquanto estou numa lanchonete perto da escola. Tento ler e com muito esforço consigo entender o título: "A ORIGEM DA DESIGUALDADE ENTRE OS HOMENS de Jean Jacques Rousseau". Fico pasmo. O que ele é então, um filósofo? Porque raios ele não se conforma apenas em ser alfabetizado? Porque ele que ser alguém letrado? Os representantes do povo odeiam os letrados. Assim que o governador souber que um simples zelador/porteiro de escola é um letrado, vai exonerar ele do cargo e transformá-lo num desempregado! Cada vez mais me irrito com esse homem! No mínimo deve ser um universitário que participa da vida acadêmica e debate questões políticas. A presidente deveria proibir esse tipo de gente nas universidades. Universidade, pra mim, deveria ser só pra aluno pegar diploma e ir trabalhar. Pra quê desenvolver pensamento político? Os próprios políticos é que se encarregam de pensar em política pela gente, mesmo que o único verbo da gramática que conheçam seja o verbo corromper.

Fico observando aquele homem sentado até a hora de encerrar seu expediente, lendo, lendo e lendo. Ele então entra pega sua bolsa e sai do mesmo modo que entrou: com uns óculos escuro e bem sério. Acompanho-o de novo até o ônibus. Agora, depois de procurar um lugar para se sentar, ele puxa outro livro de dentro da bolsa. Dessa vez não é o livro que estava lendo na ida ao trabalho, era outro maior e mais largo, com o seguinte título: "CONTOS REUNIDOS - Moacir Scliar". Aquilo é demais pra mim! Onde já se viu um brasileiro que lê mais de três livros por ano? Ou melhor: onde já se viu um brasileiro que lê mais de três livros durante toda a vida? Tenho pena desse coitado, pois ele vai sofrer com os altos impostos que caem sobre as pessoas de classe média, nesse querido país. Rico sonega e pobre é isento. Ainda bem que desisti da minha faculdade ainda nos primeiros semestres, pedi demissão de um emprego arrumado por um tio meu, que foi motorista de um dos donos de uma conceituada fábrica de ferramentas do interior, saí de dentro de casa e fui viver nas ruas. E antes que eu perca esse homem de vista aqui no Terminal DIA, vou fazer o que mais sei de melhor:

- Moço, o senhor tem um trocado pra eu inteirar um dinheiro pra comer?

Ele olha pra mim, levanta os óculos escuros, mete a mão no bolso, coloca algumas moedas na minha mão e continua lendo. Eu recebo os trocados e desço do ônibus, pois faturo como pedinte mais de mil e duzentos reais por mês, livre de impostos, sem me preocupar com nada. Até a minha cachacinha diária eu ganho pedindo nos bares. Não reconheço vida melhor. Enquanto ele... Bom, ele continua ali, vítima desse sistema vampiro, lendo e devorando aqueles conteúdos, igual a uma traça, sem perceber que quanto mais letrado ele se torna, mais impostos ele vai receber e vai ter que pagar. E esse é realmente o país que eu vivo: um país de contrastes, onde letrados ganham bem menos do que alfabetizados. O país onde fazem de tudo para que a massa nunca evolua para povo, através do sistema. O país onde esse mesmo sistema quer sempre nos controlar. Mas no fundo, no fundo, ele por si só é todo descontrolado.

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