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DESCONSTRUÇÃO.

Posted by at janeiro 02, 2015 Read our previous post
Mantinha sempre sua rotina, como uma máquina ardil: Todos os dias, beijava mulher e filhos como se aquela despedida fosse a última, pegava a marmita de feijão com arroz, que a mesma preparava com muito amor e com seu passo tímido, ia para a labuta. Trabalhava numa “obra faraônica”, como ele mesmo dizia com suas limitações escolares, que era o mais novo prédio shopping da capital sergipana. Um monumento arquitetônico de catorze andares, projetado por dois dos melhores engenheiros da capital: o Dr. Francisco e o Dr. Buarque, ambos formados em engenharia na Holanda. O projeto é de que ele tenha cinco lojas por andar, cada uma com oitenta e dois metros quadrados. Ele estava sendo erguido bem, no centro da cidade, com vista para toda a capital e quiçá alguns municípios vizinhos.

Enquanto trabalhava igual a uma máquina, erguendo tijolo por tijolo, de duas a quatro paredes mágicas e bem sólidas, passava o dia inteiro falando, nas horas em que descansava sabaticamente com uma mistura de cimento e lágrimas no rosto, do amor que sentia pela mulher, pelos filhos e pela sorte, que tinha por ter uma família tão adorável, simples e feliz. Os amigos o invejavam e às vezes nem acreditavam que ele vivesse nesse conto de fadas tão surreal.

Só que ele tinha um efeito extremamente horrível: não sabia escolher suas amizades. E quando chegava a sexta-feira, por influência dos “amigos” de serviço, saía da obra e, por amor à orgia, fazia uma turnê pelos bares e cabarés das zonas periféricas da cidade. Bebidas, mulheres fáceis e música barata faziam-no esquecer dos elogios que fazia à família enquanto estava na obra. Começava bebendo aos poucos, economizando a bebida na garrafa igual a um náufrago, e depois caía na gandaia como se fosse uma máquina.

Quando chegava a casa, no sábado de madrugada ou já pela parte da manhã, a esposa que tanta dedicação lhe oferecia, começava a lhe dar um grande sermão. Só que ele, transformado pela bebida, surrava-lhe para mostrar quem é que era o dono da razão. Parava apenas quando ela estava conformada de que ele é quem mandava e desmandava em casa. 

Os filhos, quando ouviam a mãe apanhando e aos prantos, acudiam-na e também eram espancados. Enquanto todos choravam, dançava e gargalhava em direção ao quarto ironicamente, como se ouvisse música. Ele então ia dormir e no domingo, quando acordava sóbrio, pedia perdão para a mulher e para os filhos, dizendo sempre que aquilo nunca mais ia se repetir.

Um dia, chegou em casa depois de uma de suas noitadas, viu que nem a esposa e nem os filhos se encontravam. Ela tinha ido embora com todas as economias dele, deixando apenas um bilhete de despedida, não dizendo aonde iria morar com os filhos. Transtornado, quebrou tudo dentro de casa, foi denunciado pelos vizinhos, preso pela polícia e autuado no artigo 42 do CPP. Passou a noite na cadeia, mas foi liberado no outro dia, sendo obrigado a retornar para a casa que destruiu, para limpá-la e tentar recuperar o que sobrou. Extremamente dependente da mulher, teve que pedir ajuda aos familiares, que vieram e organizaram tudo, ao máximo que puderam.

Retornou então á sua vida normal na obra, erguendo dessa vez, injúrias à esposa ao invés de elogios. Passaram-se dois, três, quatro, cinco meses e nada de sua ex-mulher dar algum sinal de vida, ou dar alguma notícia sobre onde estava. Tornou-se motivo de piada entre os colegas e aquela situação o perturbou tanto, que começou a se embriagar mais e mais vezes na semana.

Quando chegava a sexta-feira, já retornava do horário do almoço com o bafo de quem havia retornado de um alambique. As paredes que erguia depois de bêbado, ficavam mais e mais flácidas. Diferente de antes, quando amava a mulher, como se ela fosse a única em sua vida. E quando tomava das suas, praguejava ainda mais contra a ex, dizendo que se a encontrasse faria mais do que bater nela: iria acabar com a vida dela de vez.

Num desses finais de tarde de sexta-feira, quando estava para concluir o seu serviço sólido e cair na gandaia com os amigos, sentou-se no andaime para descansar que nem um passar e avistou de longe, lá de cima do oitavo andar sua ex-esposa de mãos dadas com outro rapaz, e uma expressão sincera de felicidade em seu rosto. O sorriso dela era tão intenso, que parecia ela estar olhando, não para um rapaz comum, mas para um príncipe.

Tomado pela cólera, bebeu de vez toda a pinga que trazia consigo e rapidamente começou a descer pelos andaimes. Cego pelo ódio e pelo álcool desequilibrou-se e despencou do sexto andar em queda livre por alguns segundos, rodopiando no ar, estatelando-se no chão, sem se mover e sem contrair nenhum músculo. Já era a hora do rush e ele criou um enorme tumulto no meio da rua de laranjeiras, por causa dos curiosos que passavam e olhavam a cena. Morreu no calçadão, atrapalhando o público e tumultuando o sábado.

A ex-esposa, correndo para ver o que era aquele tumulto, ao ver que se tratava de seu ex-marido, sentiu um alívio enorme em sua alma, pois finalmente ia poder respirar e existir. Olhou para o céu, agradeceu a Deus e cuspiu no morto. Muitas pessoas reprovaram a atitude dela naquele momento. Mas ela explicou toda a história que teve com o caído que estava tumultuando o calçadão. Quando chegou um dos engenheiros da obra, o Dr. Francisco, para ver quem era o operário morto, ela o abraçou, como que instintivamente. E sentindo-se redimida pela fuga do lar, para longe daquele homem violento, e pela paz que agora iria ter agora e para sempre, ela abriu a boca e pronunciou apenas uma frase:

- Deus lhe pague.

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