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A PARASITA.

Posted by at dezembro 23, 2014 Read our previous post
Moradora do bairro Santos Dumont desde que nasceu, Gregória, sempre possuiu um enorme amor ao dinheiro. O cifrão era para ela, como o sinal da cruz. Tanto que ao sair de casa, ao invés de fazer o sinal da cruz, tocava os dedos, indicador e médio na testa deslizava um “S” da direita para esquerda até o umbigo, depois tocava novamente a testa e cruzava de cima a baixo, o “S” imaginário, formando um cifrão. E repetiu esse sinal por anos e anos.

Gregória também não escondia seu amor ao capital financeiro, nem mesmo na hora de escolher aquele que iria dar continuidade à sua insignificância materialista: dispensava todos os pretendentes que ganhavam até dois salários, jogando-se nos braços, movendo montanhas  e casando-se com um que ganhava até quase dez salários mínimos. Porém esse homem era extremamente infiel. Só que ela não se incomodava.

- Eu me casei com o dinheiro, e não com o amor dele. Amor não enche barriga e nem dá luxo a ninguém.

E sempre fazia vista grossa nas puladas de cerca que o marido dava.

Nas festas, fazia questão de que todas elas fossem americanas, daquelas em que cada convidado contribuía com um prato de alguma coisa. Quando recebia os pratos, Gregória sempre separava a metade. E a outra metade ela servia aos convidados. E quando todos estavam comendo, sentava-se sempre perto da mesa, e observava quem comia muito e reclamava que a comida estava pouca, e quem comia e bebia pouco. E era fazendo essa observação que ela ia podando as visitas e as amizades: os glutões e aqueles que observavam a quantidade e comida e bebida que ela servia, eram excluídos; os que comiam pouco e não reclamavam, eram sempre bem-vindos o tempo todo.

Com o tempo, sempre que o nome de Gregória era mencionado nas conversas, ela era conhecida vulgarmente nas rodas sociais como “a parasita”, pois tinha tudo, sugava de todos e nunca gastava nada. E para raiva maior das pessoas que desfizeram a amizade com o casal ela conseguiu dar continuidade à sua espécie insignificante e teve quatro filhos: dois meninos e duas meninas.

Porém a maternidade não mudou nada do caráter dela, quanto à criação de sua prole: utilizava fraldas de pano, para não gastar dinheiro com as descartáveis e sobrecarregar a empregada; fazia as mamadeiras com leite barato; comprava roupas em brechós e, nesse ritmo, criou os filhos pelos quais ela nunca demonstrou um verdadeiro amor incondicional de mãe, pois fazia questão de frisar sempre os mais preferidos, sem se incomodar se estava ou não magoando os outros.

Um exemplo era a sua filha mais velha. Com o passar dos anos, começou a desenvolver pela jovem um desdém, por ela ter se casado com marido rico e o genro nunca a ter bajulado com presentes ou coisas do tipo, o que para ela era uma obrigação por ter gasto dinheiro na criação da prole.

- Aquela ingrata! Eu faço o pai gastar rios de dinheiro com ela, pra ela fazer o que? Casar com um homem rico e não me dar retorno de nada do que investi nela. Mas ela vai ver só!

Quando a filha mais velha enviuvou, tratou-a pior do que um cachorro com AIDS, demonstrando toda a raiva e o desprezo financeiro dela. Tanto que se emprestava algum dinheiro para a filha (ela nunca dava dinheiro de bom grado a filho nenhum), queria-o de retorno o mais rápido possível, cada centavo que havia emprestado, ligando a todo instante, fazendo cobranças.

Mas Gregória adorava a segunda filha, que mesmo tendo se casado com marido rico, fazia os gostos dela, mesmo o genro odiando-a pelas costas, como mãe, mulher e pessoa. Mas como ela só enxergava o cifrão, a mesma não ligava para a opinião do genro, pois a filha depositava em suas mãos, a quantidade de dinheiro que ela precisasse para cobrir os buracos financeiros que o filho caçula e o mais querido dela, fazia. Ele era um garoto mimado de mais de trinta anos e tinha um negócio próprio que só não afundou por causa da mãe, que movia céus e terra para acudi-lo.

- Grete é a melhor de todas! Nunca deixou de me acudir quando Samuel está no sufoco. Por isso é uma de minhas preferidas!

E essa segunda filha, só não foi segurada financeiramente pelas garras da mãe, porque foi a mais esperta de todos, indo embora do estado, para bem longe de sua genitora, acudindo a mesma de longe, e mesmo assim cortando certas regalias, pois a conta do irmão caçula estava ficando alta e o dinheiro muito curto. Pois ela não tinha nenhum retorno dos empréstimos. Por isso que para não ser vítima do parasitismo psicológico da mãe, foi embora para nunca mais voltar.

Gregória tinha ainda um filho terceiro, que estacionou sua vida dentro de casa, se tornando um vagabundo profissional: invejava a vida dos outros, mas por preguiça, não tinha o menor interesse e nem a coragem de evoluir na vida, pois tinha todos os luxos dentro de casa. Sua preguiça o fez regredir na evolução, e ele se comportava mais como um animal do que como uma pessoa. Conseguia dormir por até 24 horas, não tomava banho e só cortava as unhas e os cabelos, quando era obrigado. Ele era tão inútil que fazia mais parte da mobília, do que da família. Esse era outro que dentre todos era o mais digno de pena e raiva entre os irmãos. 

- Se eu falecer primeiro do que meu porto seguro, vou deixar uma pensão para Lui, porque ele, coitado, não tem emprego e eu tenho medo de que ele não seja acolhido por nenhum dos irmãos, quando eu for dessa para uma melhor..

Com o passar dos anos, seu parasitismo financeiro evoluiu, tornando-se controladora de toda a família. Se alguém ganhasse algum dinheiro de boa quantia, uma parte seria dela, mesmo Gregória não precisando de dinheiro algum de seus filhos, se comportando como uma verdadeira senhora feudal. Até o marido, quando se aposentou, foi obrigado a passar a senha da conta do banco, para que Gregória sacasse todos os meses a pensão dele, para que ele não ajudasse financeiramente a nenhum dos filhos, pois ninguém além dela, podia esbanjar o dinheiro dele. 

Todos, tirando o filho preguiçoso que não saía de dentro de casa, viveram sempre se afastando dela e evitando qualquer tipo de contato, pois quanto menos a viam, mais felizes eram. Mas era só Gregória dar sinal de vida, que filhos e netos torciam o nariz, pois ela sempre queria saber como andava a vida financeira de cada. Os próprios irmãos da parasita não conseguiam entender o porquê dela ser tão avarenta e amar ao dinheiro, mais do que a própria vida.

Numa bela manhã primaveril de domingo, numa reunião de família, a parasita fala aos filhos, netos e demais pessoas que quando morrer quer ser enterrada com todos os pertences que ela tinha dentro do guarda-roupa. 

- Quero que coloquem dentro do caixão, todos os meus perfumes importados, todas as jóias e quero também que forrem o fundo do caixão com meus vestidos de festa.

Todos se admiraram na hora em que a ouviram, sendo que a repercussão veio depois, quando em suas casas, os filhos dela começaram a ligar uns para os outros, para falar mais uma vez, sobre uma notícia velha: a mesquinhez da mãe e avó. O papo rendeu para todos, durante um bom tempo.

O tempo foi passando e todos ao redor da parasita estavam mais e mais infelizes. Porém, num dia quente e abafado de verão, toda a família acorda com uma notícia que os deixaram divididos entre a dor e a alegria: Gregória, a parasita, havia falecido enquanto dormia. Parentes, amigos e familiares vieram de longe, apenas para conferir se a noticia era mesmo verdade. No velório, o marido e agora viúvo, os filhos e os netos vertiam poucas lágrimas dos olhos, como se estivessem chorando apenas por consideração. Mas as demais pessoas não choraram, pois ninguém gostava dela.

Quando o caixão, que era o mais barato e não tinha nada do que Gregória havia pedido, fora totalmente coberto de terra, e a lápide de mármore fora totalmente lacrada, filhos e netos sentiram-se aliviados por dentro, pois somente agora é que iriam realmente aprender o significado da palavra viver. O dia então ficou ainda mais colorido, os pássaros cantarolavam melodias perfeitas e as flores estavam ainda mais perfumadas. Para cada um daqueles que conviveram com aquela que parasitou suas almas durante anos, a vida começava agora. E desse ia em diante Gregória nunca mais fora lembrada, nem como exemplo, nem como nada.

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